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Estilo Artístico

Cubismo: o que é, fases, obras e artistas

M Mariana
estilo cubismo

O cubismo foi uma vanguarda artística criada por Pablo Picasso e Georges Braque em Paris, no início do século XX. Em vez de reproduzir o mundo a partir de um único ponto de vista, os cubistas fragmentavam figuras e objetos em planos geométricos e combinavam diferentes ângulos na mesma imagem.

Essa mudança pode parecer simples hoje, mas alterou profundamente a história da arte. A tela deixou de funcionar como uma janela para uma cena aparentemente real e passou a afirmar sua própria superfície. Um rosto poderia aparecer de frente e de perfil ao mesmo tempo; uma mesa, um instrumento ou uma garrafa podiam ser desmontados visualmente e reconstruídos em uma nova ordem.

Mais de um século depois, a linguagem cubista permanece presente na pintura, na escultura, no design, na fotografia, na moda e na decoração. Conhecer o movimento, portanto, não é apenas estudar uma página da arte moderna: é aprender a reconhecer uma forma de pensar a imagem que continua viva.

O que é cubismo?

Cubismo é um movimento artístico que representa pessoas, paisagens e objetos por meio da geometrização, da fragmentação e da combinação de vários pontos de vista em uma única composição. Desenvolvido principalmente por Pablo Picasso e Georges Braque entre 1907 e 1914, tornou-se um dos marcos da arte moderna.

Os artistas cubistas não pretendiam apenas transformar tudo em cubos. Seu objetivo era questionar a representação naturalista consolidada desde o Renascimento. Para isso, abandonaram a perspectiva linear, reduziram a sensação de profundidade e mostraram simultaneamente partes de um objeto que, na visão cotidiana, seriam percebidas em momentos ou posições diferentes.

O resultado não é uma cópia do que o olho vê, mas uma construção visual. Como explicado no MoMA, Picasso e Braque decompunham seus temas em planos e componentes geométricos, frequentemente vistos de vários ângulos ao mesmo tempo.

Por que o cubismo é um marco da arte moderna?

Antes do cubismo, mesmo os movimentos mais inovadores ainda preservavam, em grande medida, a ideia de representar uma cena observada. Os cubistas mudaram a pergunta. Em vez de “como reproduzir o que vejo?”, passaram a investigar “como construir na tela aquilo que conheço e percebo?”.

Essa ruptura abriu caminho para a abstração e influenciou movimentos como futurismo, construtivismo, dadaísmo e surrealismo.

Origem do cubismo

O cubismo surgiu em Paris, em um ambiente de intensa experimentação artística. Sua criação é atribuída a Pablo Picasso e Georges Braque, que trabalharam em diálogo estreito a partir de 1907. Entre suas principais referências estavam a obra de Paul Cézanne, esculturas de diferentes culturas africanas e da Oceania e a arte ibérica antiga.

A influência de Paul Cézanne

Paul Cézanne teve papel decisivo na formação da linguagem cubista. Suas paisagens e naturezas-mortas simplificavam volumes, deslocavam sutilmente a perspectiva e tratavam a natureza de maneira estrutural. Após sua morte, em 1906, uma grande retrospectiva realizada em Paris, em 1907, aproximou uma nova geração de artistas de suas pesquisas.

Picasso e Braque levaram essas experiências adiante. A paisagem deixou de se organizar segundo um ponto de fuga estável, e casas, montanhas, árvores e corpos passaram a ser articulados como volumes e planos interligados.

Arte africana, Oceania e escultura ibérica

Picasso também encontrou novas soluções formais em esculturas africanas e ibéricas. Rostos angulosos, simplificação de volumes e uma presença escultórica intensa contribuíram para sua ruptura com os padrões naturalistas europeus.

É importante observar esse encontro em seu contexto histórico: muitas obras africanas e da Oceania chegaram a museus europeus por meio de redes coloniais. Reconhecer a influência dessas tradições significa também superar o antigo hábito de apresentá-las apenas como matéria-prima anônima para a inovação europeia.

Les Demoiselles d’Avignon como marco fundador

Les Demoiselles d’Avignon

Pintada por Picasso em 1907, Les Demoiselles d’Avignon é frequentemente considerada o ponto de partida do cubismo, embora ainda não apresente todas as características de sua fase analítica. Na obra, cinco figuras são organizadas em formas angulares, com um espaço comprimido e rostos semelhantes a máscaras.

Hoje pertencente ao acervo do MoMA, em Nova York, a pintura condensou pesquisas que seriam desenvolvidas por Picasso e Braque nos anos seguintes. Em 1908, ao comentar paisagens de Braque realizadas em L’Estaque, o crítico Louis Vauxcelles associou suas formas geométricas a “cubos”.

Como reconhecer uma obra cubista?

As principais características do cubismo são a fragmentação das formas, a geometrização, a multiplicidade de pontos de vista, a redução da profundidade e a valorização da superfície da obra. Elas aparecem com intensidades diferentes conforme o artista e a fase do movimento.

Ao observar uma pintura cubista, procure os seguintes elementos:

  • Formas geometrizadas: corpos, objetos e paisagens são estruturados como planos, cilindros, cones e volumes angulosos.

  • Vários ângulos simultâneos: um rosto pode reunir visão frontal e perfil; uma mesa pode revelar ao mesmo tempo sua lateral e sua parte superior.

  • Fragmentação: o tema é decomposto em facetas e reconstruído na superfície da tela.

  • Espaço pouco profundo: figura e fundo parecem se interpenetrar, reduzindo a ilusão de distância.

  • Ruptura com a perspectiva linear: não há necessariamente um ponto de fuga único nem uma posição fixa para o observador.

  • Paleta controlada na fase analítica: tons de ocre, cinza, marrom e verde ajudam a concentrar a atenção na estrutura.

  • Colagem e materiais cotidianos na fase sintética: jornais, papéis de parede, rótulos e outros elementos passam a integrar a obra.

Arte acadêmica e cubismo: qual é a diferença?

Aspecto

Representação acadêmica tradicional

Cubismo

Ponto de vista

Único e fixo

Múltiplo e simultâneo

Perspectiva

Cria ilusão de profundidade

Evidencia a superfície plana

Forma

Contínua e naturalista

Fragmentada e geometrizada

Luz e sombra

Modelam volumes de modo realista

Cedem lugar a planos e facetas

Objetivo

Aproximar a imagem da aparência visível

Investigar e reconstruir visualmente o tema

O cubismo não eliminou completamente o objeto. Mesmo nas composições mais complexas, pistas como curvas de um violão, letras de um jornal, contornos de uma garrafa ou traços de um rosto ajudam o observador a reconstruir o tema. É por isso que algumas obras transmitem a sensação de uma “pintura escultórica”: volumes parecem ter sido desmontados e reorganizados sobre uma superfície plana.

Quais são as três fases do cubismo?

Em materiais didáticos, é comum dividir o cubismo em três fases: cezanniana ou pré-cubista, analítica e sintética. Na historiografia da arte, porém, a divisão formal mais recorrente reconhece duas fases principais, analítica e sintética, e trata os anos de 1907 a 1909 como um período de formação. As duas leituras são compatíveis quando essa diferença é explicitada.

Fase

Período aproximado

Cores e formas

Técnica predominante

Obra de referência

Cezanniana ou pré-cubista

1907–1909

Volumes simplificados e angulosos

Geometrização e compressão do espaço

Les Demoiselles d’Avignon, Picasso, 1907

Cubismo analítico

1909/1910–1912

Ocres, cinzas e marrons; pequenas facetas

Decomposição do tema e múltiplos pontos de vista

Man with a Guitar, Braque, 1911–1912

Cubismo sintético

A partir de 1912; núcleo histórico até 1914

Formas maiores, mais legíveis e cores variadas

Colagem, papier collé, letras e materiais cotidianos

Bottle and Wine Glass on a Table, Picasso, 1912

Fase cezanniana ou pré-cubista (1907–1909)

Nessa etapa inicial, Picasso e Braque exploraram a simplificação dos volumes inspirada em Cézanne. As figuras ainda são reconhecíveis, mas ganham contornos rígidos, angulosos e um peso quase escultórico. Paisagens de Braque em L’Estaque e obras de Picasso produzidas após Les Demoiselles d’Avignon mostram a rápida construção de uma nova linguagem.

Cubismo analítico (1909/1910–1912)

No cubismo analítico, o objeto é decomposto em numerosas facetas. Os planos se sobrepõem, figura e fundo se aproximam e as cores tornam-se sóbrias. Instrumentos musicais, retratos, garrafas e naturezas-mortas continuam presentes, mas podem exigir uma observação demorada para serem identificados.

A análise não significa uma dissecação científica literal. Trata-se de um método visual: o artista explora diferentes partes e pontos de vista do tema e os reorganiza em uma imagem única. Obras como Man with a Guitar, de Georges Braque, e Girl with a Mandolin, de Picasso, exemplificam essa fase.

Cubismo sintético (a partir de 1912)

O cubismo sintético reúne formas maiores e mais definidas. Em vez de decompor o objeto em incontáveis facetas, o artista o sugere por meio da combinação de sinais: um recorte curvo pode indicar um instrumento; algumas letras podem remeter a um jornal; um papel estampado pode funcionar como tampo de mesa ou parede.

Picasso e Braque incorporaram jornais, papéis de parede, rótulos, areia e outros materiais às composições. Nascia a colagem como procedimento central da arte moderna. O MoMA situa o início dessa fase por volta de 1912 e destaca a passagem da paleta neutra e dos planos fragmentados para cores mais variadas, formas simplificadas e materiais do cotidiano.

Principais obras do cubismo

As obras cubistas mostram que o movimento não foi uma fórmula única. Algumas são densas e quase monocromáticas; outras têm cores fortes, colagens e figuras facilmente reconhecíveis.

Les Demoiselles d’Avignon — Pablo Picasso, 1907

Considerada uma obra fundadora, rompe com a anatomia naturalista e organiza cinco figuras em planos cortantes. A pintura pertence ao MoMA, em Nova York. https://www.moma.org/collection/works/79766.

Houses at L’Estaque — Georges Braque, 1908

Nesta paisagem, casas e árvores são reduzidas a volumes compactos, enquanto a perspectiva tradicional perde estabilidade. Obras dessa série ajudaram a originar o nome “cubismo”. https://www.moma.org/collection/works/78787.

Girl with a Mandolin (Fanny Tellier) — Pablo Picasso, 1910

O corpo e o instrumento são decompostos em facetas, mas ainda podem ser reconhecidos. A obra, pertencente ao MoMA, é um exemplo marcante do cubismo analítico. https://www.moma.org/collection/works/80430.

Man with a Guitar — Georges Braque, 1911–1912

Braque comprime a figura e o espaço em uma trama de planos ocres e cinzentos. Partes do instrumento e do personagem aparecem como pistas visuais entre as facetas. https://www.moma.org/collection/works/79048.

Still Life with Chair Caning — Pablo Picasso, 1912

Conhecida em português como Natureza-morta com cadeira de palha, combina pintura, corda e um tecido encerado industrialmente estampado. A obra tornou-se um marco da colagem e da entrada de materiais cotidianos no campo da arte. https://www.pablopicasso.org/still-life-with-chair-caning.jsp.

Violin and Playing Cards on a Table — Juan Gris, 1913

Juan Gris organiza instrumentos e objetos cotidianos com clareza estrutural, mostrando como o cubismo sintético ganhou uma linguagem própria para além de Picasso e Braque. A obra integra o acervo do Metropolitan Museum of Art. https://www.metmuseum.org/art/collection/search/486744.

Three Musicians — Pablo Picasso, 1921

Embora produzida após o período central do movimento, Three Musicians resume de maneira monumental a linguagem sintética. Grandes áreas planas de cor se encaixam como recortes de papel. https://www.moma.org/collection/works/78630.

Leia também: 137 obras de arte mais famosas do mundo e seus artistas

Cubismo, ciência e a ideia de quarta dimensão

O cubismo surgiu em um período fascinado por novas maneiras de compreender espaço, tempo e percepção. Geometrias não euclidianas, a divulgação da quarta dimensão e debates científicos circulavam entre escritores e artistas de vanguarda. Nesse ambiente, o matemático e atuário Maurice Princet, próximo ao círculo de Picasso, Apollinaire e outros artistas, ajudou a divulgar conceitos matemáticos entre os cubistas.

A “quarta dimensão” na arte, porém, não correspondia a uma fórmula única. Para alguns autores e artistas, significava superar a perspectiva fixa; para outros, sugeria duração, movimento, uma realidade superior ou a possibilidade de ver um objeto de maneira mais completa. Essas ideias aparecem com mais nitidez nos chamados cubistas de Salão, como Jean Metzinger e Albert Gleizes, do que nos depoimentos de Picasso e Braque.

O cubismo foi inspirado pela Teoria da Relatividade?

Não há evidência sólida de que a Teoria da Relatividade de Albert Einstein tenha causado o cubismo. A relatividade especial foi publicada em 1905 e o cubismo começou a se formar poucos anos depois, mas proximidade cronológica não prova influência direta.

É mais preciso falar em paralelo cultural: ciência e arte questionavam, por caminhos diferentes, modelos tradicionais de espaço, tempo e observação. No campo artístico, a quarta dimensão e a geometria não euclidiana já circulavam por livros de divulgação e pelo contato com figuras como Princet. Assim, a conexão é intelectualmente fértil, mas não deve ser apresentada como uma relação simples de causa e efeito.

Cubismo no Brasil

O cubismo no Brasil não se estabeleceu como uma escola organizada nos mesmos moldes de Paris. Sua influência foi incorporada seletivamente por artistas modernistas, que combinaram a geometrização e a fragmentação cubistas com cores, temas e questões culturais brasileiras.

A Semana de Arte Moderna de 1922 tornou-se o símbolo da ruptura com o academicismo. O evento reuniu propostas diversas, e não exclusivamente cubistas. Tarsila do Amaral, um dos maiores nomes do modernismo, não participou da Semana: ela estava em Paris naquele momento e se aproximou do grupo modernista após retornar ao Brasil. Seus estudos posteriores com André Lhote, Albert Gleizes e Fernand Léger contribuíram para a construção geométrica que aparece em várias de suas obras.

Entre os artistas brasileiros que dialogaram, em diferentes graus, com soluções cubistas, estão:

  • Tarsila do Amaral: combinou estrutura geométrica, cores brasileiras e síntese formal, especialmente nas fases Pau-Brasil e Antropofágica.

  • Anita Malfatti: reuniu referências expressionistas, pós-impressionistas e cubistas em sua defesa de uma pintura moderna.

  • Di Cavalcanti: utilizou simplificações e construções geométricas sem abandonar a figura humana e os temas sociais brasileiros.

  • Vicente do Rego Monteiro: articulou geometrização moderna, figuração e referências à cultura indígena brasileira.

Na literatura, a influência cubista aparece menos como escola e mais como procedimento: fragmentação, montagem, simultaneidade e aproximação de imagens inesperadas. A poesia de Oswald de Andrade e experiências visuais de autores ligados às vanguardas dialogam com esse princípio de composição. Guillaume Apollinaire, na França, foi uma figura central na aproximação entre escrita e cubismo; no Brasil, essas pesquisas foram recriadas dentro do projeto modernista e antropofágico.

Décadas depois, a investigação da geometria, do plano e do espaço tomaria novos caminhos no concretismo e no neoconcretismo.

Conheça também: quatro grandes influências do neoconcretismo no Brasil

Principais artistas do cubismo

Embora Picasso e Braque tenham criado o núcleo da linguagem cubista, muitos artistas ampliaram suas possibilidades na pintura, na escultura e na literatura.

Pintores cubistas

  • Pablo Picasso (1881–1973): cocriador do cubismo, participou das fases analítica e sintética e levou suas descobertas para diferentes momentos da própria obra.

  • Georges Braque (1882–1963): desenvolveu o movimento em colaboração próxima com Picasso e teve papel decisivo nas pesquisas com textura, letras, papier collé e materiais não convencionais.

  • Juan Gris (1887–1927): construiu composições de grande precisão, equilíbrio e legibilidade, tornando-se um dos principais nomes do cubismo sintético.

  • Fernand Léger (1881–1955): criou uma linguagem de volumes tubulares, contrastes fortes e temas ligados à vida urbana e à máquina.

  • Jean Metzinger (1883–1956) e Albert Gleizes (1881–1953): artistas e teóricos ligados ao cubismo de Salão; publicaram Du “Cubisme” em 1912.

  • Robert Delaunay (1885–1941) e Sonia Delaunay (1885–1979): partiram de pesquisas cubistas em direção à cor, ao ritmo e à abstração.

Escultores cubistas

  • Alexander Archipenko (1887–1964): explorou vazios, planos côncavos e convexos e a fragmentação da figura humana.

  • Raymond Duchamp-Villon (1876–1918): aproximou estrutura orgânica, movimento e geometrização.

  • Jacques Lipchitz (1891–1973): traduziu a construção cubista para volumes escultóricos densos e interligados.

Constantin Brancusi foi contemporâneo dos cubistas e compartilhou o interesse pela simplificação formal, mas costuma ser estudado em trajetória própria, não como um representante central do cubismo.

Escritores e críticos ligados ao movimento

Guillaume Apollinaire foi poeta, crítico e defensor do cubismo. Sua escrita experimental e seus caligramas exploraram simultaneidade e organização visual da página. Gertrude Stein também conviveu com Picasso e desenvolveu uma prosa de repetição e múltiplas perspectivas frequentemente aproximada da estética cubista.

Por que o cubismo continua atual?

O cubismo permanece atual porque modificou nossa relação com as imagens. Ao mostrar que toda representação é uma construção, antecipou práticas de montagem, edição e recombinação que fazem parte da cultura visual contemporânea.

Seu legado está tanto nas obras preservadas em grandes museus quanto nas experiências de artistas que trabalham hoje. Para o observador e para o colecionador, compreender o cubismo amplia a capacidade de perceber estrutura, ritmo, material e ponto de vista, elementos que ajudam a olhar a arte com mais atenção e autonomia.

Conhecer um movimento é também aprender a reconhecer suas transformações. Explore o acervo de artistas da Galeria Ampliart e observe como diferentes linguagens modernas e contemporâneas constroem novas relações entre forma, espaço e experiência.

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Sobre o autor

Mariana

Diretora de Galerias de Arte

Diretora de galeria com mais de 15 anos de experiência no mercado de arte. Especialista em curadoria, formação de acervos e na valorização de artistas brasileiros, conduz projetos expositivos com um olhar sensível e estratégico, aproximando obras, artistas e público.